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As lágrimas, o ET e o anjo

06/07/2010

Espiando, vi pela primeira vez minha mãe deixar uma lágrima cair. Trinta e três anos, duas filhas, um resultado inesperado. Eu, 6, caçula e ciumenta, só queria saber em qual quarto ficaria o berço. E quis dar o nome caso fosse uma menina. Isabele. Alguém, com certo bom gosto, olhou, lá de cima, e apontou para o outro lado, onde Daniele, 8, teria o direito a escolher.

- Ele parece um ET – foi a primeira frase do discurso emocionado da vencedora da aposta ao conhecer o irmão, Marcelo.

Nunca enxerguei o tal ET. Mas voltei a deparar-me com mais lágrimas poucos meses depois. Àquela época, a roupa do batismo já estava comprada.
Quase foi devolvida.

As lágrimas daqueles olhos verdes remetiam ao fundo de um poço de uma refinaria, onde o padrinho salvou duas vidas e acabou por lá ficar.

Alheio à tristeza, o menino gordinho – não mais ET, segundo Daniele – vestia, enfim, a roupa branca e ia para outro colo. Segurando-o, meio sem jeito, e enxugando o rosto, o filho do padrinho, o novo padrinho. Aos 13, ali, talvez tenha imaginado como a vida dele iria mudar.

Fiquei muito tempo sem presenciar outras lágrimas de minha mãe, mas vira e mexe eu a fazia se aborrecer. Um dos motivos era o nosso par ou ímpar pré-adolescente para decidir quem – Gabriele ou Daniele? – iria buscar na escola aquela criança que agora mais parecia um anjo, de cachos e olhos azuis. Mas logo ela se acalmava. E nos acalmava quando escutava os choros desconsolados depois que o anjinho abria o armário e despejava ao chão nosso jogo preferido, o “Jogo da Vida”.

Nossa vida, definitivamente, tinha mudado.
E muito mudaria ainda. Nós, o jogo, a vida.
Eu, que torcia por Isabele, hoje torço – incondicionalmente – por ele.

Um comentário

  1. Hoje ao termino desta pequena crônica, as lágrimas vieram aos olhos por lembrar do passado, mas também vieram em seguida as lágrimas de alegria, orgulho e sensação de dever cumprido. Filha, nós (eu e seu pai) te demos o caminho das pedras (educação e instrução) e em certo momento você sob caminhar maravilhosamente; determinada, segura, convicta daquilo que sempre quis (desde de pequena), ser jornalista. Cada vez que leio textos seu, eu me debulho em lágrimas ou em risos, pois tem alguns muito engraçados. Você é minha ídola, digo isto como leitora!!!!!Beijinhos, te adoro, filha!!!!!



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