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O menor vigia do planeta se aposentou

02/03/2010

Sempre quis saber quanto ele tinha de altura. Não devia bater nem no meu ombro, ainda mais quando eu, com as ideias meio confusas, chegava com o dia já claro, tentando me equilibrar sobre um par de saltos. Como era baixo aquele senhor… Eu, do alto de meus 1,69m, juntava o que me restava de consciência, respirava fundo e:

“Bom dia, Raminho. Como vai?”

Tinha que tentar manter minha figura de moça trabalhadora que paga as contas e tem todo o direito do planeta de reclamar das coisas erradas do prédio.

Como naquele 2 de janeiro do ano após o rebaixamento de Plutão, quando quis tirar o carro da garagem, e o manobrista não achava a minha chave. O estacionamento estava superlotado, com veículos nunca antes vistos, provavelmente que não pertenciam a moradores. Exigi que o baixinho ligasse, às 8h, para o síndico.

“Preciso deixar isso registrado”

Sim, eu era chata. Sim, eu sou chata. Sim, é preciso ser chata às vezes. Muitas vezes.

Muitas vezes ele ficou ali observando. Por 39 anos.

O seu último dia de trabalho virou noite. Não conseguiu deixar aqueles poucos metros de portaria antes das 3h, pelo menos. Ali, bêbado, trocou o “bom dia” pelo “boa noite”, pela primeira vez. Pela última vez. E, dessa vez, foi ele quem segurou o que lhe restava de sobriedade e respirou fundo.

“Mande um abraço para sua avó”

Um comentário

  1. SENSACIONAL!!!! Adorei a crônica “O menor vigia do planeta, se aposentou” Posso usalá-la em aula?

    Show de bola, filha!!! Você é 10000000000000

    Beijos!!!!!!



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