Sim, tudo começa com uma boa mesa. Aquela em que você para e conclui: aqui, serei disciplinada. Escreverei todos os dias, ou pelo menos algumas vezes e, daqui a alguns anos, enfim publicarei aquele livro que me colocará finalmente no grupo dos escritores pseudo-intelectuais famintos. A primeira das três coisas que fazem de um homem realmente um homem completo: escreva um livro, plante uma árvore e tenha um filho.
Na mesa perfeita, as idéias simplesmente saem. É como o aquele caderno novinho, no início do ano. Aquele em que as folhas estão ali, esperando pelo lápis nunca antes usado. Esperando que uma mão delicada deite-se sobre ele e, com a caligrafia perfeita, escreva as primeiras palavras. Errou? Sem problema. A borracha também quer ser usada. Caso não haja como, o jeito é arrancar a primeira página. Cadernos novos não se importam. Aos saírem da gráfica, sabem que não foram feitos para permanecerem com todas elas até o fim da vida.
A mesa nova, desta vez, não tem a melhor das vistas. Uma vista que hoje é só minha. Nada. O vizinho tem a mesma. Mas acho que ele nunca a observa. As janelas estão sempre fechadas. Parece até os prédios da avenida Atlântica. Os moradores pagam fortunas para terem o mar à frente, mas se esquecem de que o mar tem uma defesa. A maresia. Só isso explica. Do contrário, por que as janelas de todos os prédios ficariam sempre fechadas?
Volto à minha janela. Da minha janela vejo muitas outras janelas e dois terraços. Nas pequenas janelas, é possível ver coisas que não gostaria de ver. Escutar coisas que não gostaria de escutar. Mais três metros para cima, e eu veria a melhor das vistas que minha cidade pode oferecer. Um cara que está sempre de braços abertos. Eu não o vejo, mas ele me vê. Sei disso. Não preciso ir à casa dele, ou conversar com ele todos os dias. A gente se entende.
Antes, mais uma pessoa via a mesma vista que eu. Mas ele não via esse cara de quem falei. Só via as coisas que não queríamos ver. Não via a beleza do caos. Só reclamava da sujeira dos apartamentos ocupados por prostitutas e travestis. Ele não escutava o silêncio. Só ouvia os latidos dos cachorros de um sujeito homossexual que falava alto, gritando com seus meninos.
Ele escutava o barulho dos tiros, das granadas. Mas de que adianta ouvir, comentar com os amigos? E só. Ele foi embora, os tiros continuam. Às vezes, parecem que são ali na casa da vizinha. Não são. Mas são na casa da vizinha da Gil, a manicure. Talvez ela não possa se levantar à noite para pegar um copo de água. Talvez ela tenha que caminhar agachada para ir ao banheiro, caso tenha vontade, depois de beber a água. Será que ela tem uma mesa? Um caderno novo, um lápis recém-apontado? Talvez ela tenha a mesa, sim. Mas talvez ela não possa se sentar.