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Fiquem tranquilos. É apenas gás tóxico

01/09/2009

Um documentário do canal Futura me fez lembrar um passeio a Potosí, na Bolívia. Era para conhecer as minas de carvão, orgulho da cidade. Vesti a roupa mais brega que uma menina pode usar, coloquei o capacete com lanterna na cabeça e entrei na caverna.

No meio da expedição, um barulho. Era uma explosão de dinamite, claro. A mina estava a topo vapor. Esse era o grande barato: ver como funcionava. O guia nos orienta:

- Fiquem tranquilos. Vamos esperar um pouco aqui até que a fumaça acabe. É gás tóxico.

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A pior profissão do mundo

12/08/2009

Já contei que fui à rodoviária outro dia, quase peguei gripe suína e por pouco não tive que comprar passagem para o céu, em ônibus leito. O que não contei foi que, lá, cheguei à conclusão sobre a pior profissão do mundo.

ATENDENTE DE EMPRESA DE TÁXI NA RODOVIÁRIA NOVO RIO

As moças passam o dia inteiro caçando clientes. Ficam dentro da cabine gritando sem parar: “Ei, psiu, psiu, táxi, táxi”

É muito pior do que aquelas que fazem o mesmo serviço em aeroportos. Ali, elas têm concorrência forte dos táxis que ficam do lado de fora e dos muitos ônibus de R$ 2,20.

As moças da rodoviária superaram os rapazes do sorvete cascão. Eles, coitados, ficam o dia inteiro ouvindo a mesma musiquinha, mas pelo menos trabalham na praia.

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A mesa

14/07/2009

Sim, tudo começa com uma boa mesa. Aquela em que você para e conclui: aqui, serei disciplinada. Escreverei todos os dias, ou pelo menos algumas vezes e, daqui a alguns anos, enfim publicarei aquele livro que me colocará finalmente no grupo dos escritores pseudo-intelectuais famintos. A primeira das três coisas que fazem de um homem realmente um homem completo: escreva um livro, plante uma árvore e tenha um filho.

Na mesa perfeita, as idéias simplesmente saem. É como o aquele caderno novinho, no início do ano. Aquele em que as folhas estão ali, esperando pelo lápis nunca antes usado. Esperando que uma mão delicada deite-se sobre ele e, com a caligrafia perfeita, escreva as primeiras palavras. Errou? Sem problema. A borracha também quer ser usada. Caso não haja como, o jeito é arrancar a primeira página. Cadernos novos não se importam. Aos saírem da gráfica, sabem que não foram feitos para permanecerem com todas elas até o fim da vida.

A mesa nova, desta vez, não tem a melhor das vistas. Uma vista que hoje é só minha. Nada. O vizinho tem a mesma. Mas acho que ele nunca a observa. As janelas estão sempre fechadas. Parece até os prédios da avenida Atlântica. Os moradores pagam fortunas para terem o mar à frente, mas se esquecem de que o mar tem uma defesa. A maresia. Só isso explica. Do contrário, por que as janelas de todos os prédios ficariam sempre fechadas?

Volto à minha janela. Da minha janela vejo muitas outras janelas e dois terraços. Nas pequenas janelas, é possível ver coisas que não gostaria de ver. Escutar coisas que não gostaria de escutar. Mais três metros para cima, e eu veria a melhor das vistas que minha cidade pode oferecer. Um cara que está sempre de braços abertos. Eu não o vejo, mas ele me vê. Sei disso. Não preciso ir à casa dele, ou conversar com ele todos os dias. A gente se entende.

Antes, mais uma pessoa via a mesma vista que eu. Mas ele não via esse cara de quem falei. Só via as coisas que não queríamos ver. Não via a beleza do caos. Só reclamava da sujeira dos apartamentos ocupados por prostitutas e travestis. Ele não escutava o silêncio. Só ouvia os latidos dos cachorros de um sujeito homossexual que falava alto, gritando com seus meninos.

Ele escutava o barulho dos tiros, das granadas. Mas de que adianta ouvir, comentar com os amigos? E só. Ele foi embora, os tiros continuam. Às vezes, parecem que são ali na casa da vizinha. Não são. Mas são na casa da vizinha da Gil, a manicure. Talvez ela não possa se levantar à noite para pegar um copo de água. Talvez ela tenha que caminhar agachada para ir ao banheiro, caso tenha vontade, depois de beber a água. Será que ela tem uma mesa? Um caderno novo, um lápis recém-apontado? Talvez ela tenha a mesa, sim. Mas talvez ela não possa se sentar.

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Meu top-5 com o Slater

10/07/2009

- Confundiu o Lula com a Xuxa e fez piada com o Bush – Chile
- Escutou músicas brasileiras e pediu pra eu gravar Vanessa da Mata e Caetano pra ele – Imbituba
- Me levou até a casa do Jack Johnson – Pipeline, Havaí
- Escreveu palavras de consolo quando soube que eu passava por um momento triste: “Tudo faz sentido no final” – por e-mail
- Falou que quer levar o Fidel Castro para surfar – Imbituba

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Malhação de esposas, malhação de amantes

08/06/2009

Desde que vendi os olhos da cara para pagar a Estação do Corpo eu tento explicar a diferença de lá para as outras academias.

Lá tem tudo.
Lá é um clube.
Lá malham pessoas genuinamente bonitas. E inteligentes.
Lá malham milhares de artistas, mas, acreditem, eles passam despercebidos.
Lá ninguém repara na roupa que você usa. Aliás, tenho certeza de que, se eu for malhar de pijama, ninguém vai reparar…

Eis que Mario Guilherme, em uma visitinha, com toda a sua sutileza, concluiu:

“Na Estação malham as esposas. Na Bodytech, as amantes”

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London, London. Havana, Havana

26/05/2009

Era fim de viagem e, inesperadamente, ainda havia euros na carteira. Oportunidade para tentar se livrar da fama de não-consumista. Encarou a loja lotada, as filas para experimentar e para pagar. Três blusas. Direto de Londres.

Um ano se passou, e elas passaram somente a remeter a um passado lindo, mas passado. Tentou usá-las algumas vezes. Dar? Como? Só eram vendidas do outro lado do Atlântico. Não voltaria lá tão cedo.

Insistiu em uma delas. Não vestia como antes. Primeiro atribuía ao fato de estar mais magra. Depois, de estar mais gorda. Mais forte. Mais bonita. As blusas já não mais combinavam. Não teve outra opção. Foram parar em uma mulata alta, esguia. Cubana.

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A diarista apaixonada

26/05/2009

Isadora ainda era uma universitária quando comeu aquele suflé de queijo pela primeira vez, na casa do namorado. Quando se casaram, fez questão de levá-la. Vavá trabalhava uma vez por semana: faxinava, lavava, passava e cozinhava, claro. Podia faltar água, mas não queijo ralado e ovo para o suflé.

Isadora se separou, mas não abriu mão da diarista. Aos 45 anos, divorciada e com três filhos criados, Vavá cuidava daquela pequena casa como se fosse a sua. E se preocupava com a saúde e o coração de Isadora.

Até o dia em que, ao voltar para casa, deparou-se com o pai de seus filhos sentado no sofá. Pediu perdão, 11 anos depois.

Apaixonada, Vavá passou a se atrasar, a ficar o dia todo no telefone.
Um dia, errou a receita do suflé. Isadora passou mal. Na semana seguinte, estava salgado demais.

Isadora já não fazia pedidos, mal puxava conversa. Elas tomavam sempre um caminho até o nome do pai dos filhos de Vavá. Meses se passaram assim.

Era véspera de Ano Novo quando Vavá abriu a porta da casa de Isadora e não deu “bom dia”. O marido a havia abandonado. De novo. Isadora deu a ela palavras de carinho. Ganhou de volta a diarista. E o suflé.

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Traseira de caminhão?

19/05/2009

Corro porque o caminho é longo e a vida é curta.

Jogo bola e driblo os meus problemas.

Luto boxe e aguento qualquer pancada.

Sou capoeira porque, gingando, a vida ganha muito mais graça.

Vou patentear e mandar fazer adesivos e camisas.

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Um mundo de gentileza

24/04/2009

Eu ainda dividia as contas por dois quando me cadastrei no couchsurfing. Mas, na época, tínhamos preguiça de abrir nossa casa a desconhecidos viajantes. Depois, sozinha, tinha medo. Graças à Reba e ao Ronaldo, tomei coragem. E vi que o mundo, sim, tem salvação. Vi que por todo o mundo há gente como a gente.

Gente que não rouba. Gente não quer guerra. Gente que sabe que a vida é muito mais do que um trabalho, uma rotina. Gente que viaja, mas sente saudade de casa. Gente feia. Gente bonita. Gente. Gentileza. Pura gentileza.

Custa dinheiro, custa tempo. Mas eu é que agradeço.

Obrigada, Oded, Shirley, Hector, Elisa, Nathalie, Yael, Brian, Nathan e Andreas.

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Quando você foi preconceituoso?

01/04/2009

Quem pergunta é a Trip.
Eu? Toda hora.

Quando fechei o vidro,
quando apertei a bolsa,
quando atravessei a rua.
Quando virei pro lado
e dei um sorriso debochado.
Quando não gostei,
quando nem provei.

O bom é ver que estava errada. Sinal de que algo ou alguém me surpreendeu.